|
|
30/03/2008 13:24
Alice não mora mais aqui

Às vezes, tenho sensações perdidas... Sensações que surgem diante de certas coisas que fazem reascender momentos de emoções sentidas ou percepções quebradas de momentos passados. Não sei explicar direito esses nacos de inconsciente quebrados... Não sei explicar nada, na verdade. Mas essas percepções me perseguem... E, de um tempo pra cá, tenho a impressão de que elas têm me perseguido com mais intensidade e presença... Ou elas sempre existiram e eu fazia força pra não prestar atenção nelas... Ou, até um momento, eu não sabia reconhecer ao certo essas sensações estranhas, uma coisa levemente parecida com um dejà vu, mas mais real (isso é possível?)... São como pedaços de memória, mas pedaços que ganharam uma significação impregnada de nostalgia, impactantes o suficiente para me incomodarem a ponto de desviarem meus pensamentos por um dia inteiro.
Às vezes, tenho sensações perdidas... Elas parecem querer me dizer que perdi alguma coisa, ou que alguma coisa está perdida pra sempre e eu nunca vou saber realmente o que significa essa perda-fantasma. Queria saber explicar. Queria saber compreender. Mas talvez essas sensações não existam para serem compreendidas... Talvez elas existam para lhe mostrar momentos que fizerem você ser o que é... E você jamais, jamais imaginaria como esses momentos iriam construir você, como eles seriam os culpados daqueles dias que você sente que precisa encontrar algo desesperadamente, mas não sabe o que é... Só sabe que algo precisa ser encontrado, algo que vai aliviar sua eterna sensação de que algo está faltando. Memórias perdidas sempre deixam uma sensação de vazio que precisa ser preenchido. A grande questão é o que, afinal, preenche esse vazio. Provavelmente nada.
Talvez essa sensação de vazio que irrompe tão violentamente do nada pode surgir ao assistir um filme, ao se sentar em um banco de praça e observar vidas alheia se movendo, ao se perder em pensamentos enquanto espera a água do café ferver exista para nos alertar que algo se perdeu completamente, para sempre. E não, nós nunca vamos saber o que é. Só ficaremos pra sempre com a terrível sensação de perda. Com aquela sensação injusta que poderíamos ter sido algo que sempre sonhamos, apesar de não sabermos o que é que sempre sonhamos. Só sabemos que perdemos algo. Que algo se perdeu completamente. Talvez em alguma separação, talvez em algum momento da infância, talvez em algum lugar que tenhamos deixamos de ir por preguiça, talvez em alguém que não tenhamos conhecido, mas que nos esperou a vida toda, mesmo sem saber.
Às vezes, tenho sensações perdidas... Cada vez que as sinto, deixo de ser a pessoa que estava sendo até então. Cada vez que as sinto, vou embora de algum lugar. Essas sensações me fazem estar sempre à procura de alguma coisa, que talvez eu saiba que nunca, nunca vou achar. Mas como eu deixaria de procurar?
enviada por Ka
19/11/2007 20:35
Se acaso você chegasse

Quando você enfim abrir o seu coração incondicional pra mim, não sei direito o que faria... Provavelmente me esconderia na covardia do orgulho, me vestiria de uma indiferença inexistente, te machucaria com sarcasmo, tomaria café com desdém e jogaria em você toda a frustração do medo que tenho de mim que escondo atrás da minha estante de madeira maciça cheia de livros de filosofia.
Hegel disse que o amor se encontraria a si mesmo em outros seres humanos.
Eu saberia disso se tivesse lido Hegel...
Você se cansaria. Não conseguiria mais tentar me entender.
A culpa seria sua.
Tudo se acabaria.
Você não voltaria nunca mais.
A culpa continuaria sendo sua.
Hegel também se cansaria.
Iria embora pela janela do espírito do tempo.
O idealismo perderia a razão.
Tudo culpa sua.
Quanto a mim... Voltaria a ficar em companhia da pessoa mais desagradável que possa existir desse lado esquerdo da realidade: eu.
E eu logo viraria...
Não viraria nada.
Descartes refletia sobre a possibilidade de que tudo que vivemos seja um sonho.
Mas eu nunca li Descartes.
Isso não é um sonho.
enviada por Ka
11/09/2007 01:04
E ninguém devolveu minhas cartas
Em algum momento (e esse momento vai chegar), todo mundo... Todo mundo (ou alguém muito específico a ponto de influenciar nos seus pensamentos) a sua volta transforma-se em algo terrivelmente desconhecido. E você se pergunta quando, afinal, os pedaços começaram a cair e você nem percebeu. Só se deu conta quando tudo que você conhecia mudou e ninguém sequer cogitou te dar o endereço pra você tentar se orientar. Ou pelo menos não se perder.
Apesar de saber que nada é mais o que um dia se pensou que fosse, você sempre volta pelo antigo caminho, tentando achar algo familiar. Esperança clandestina. E todos eles que mudaram e não avisaram... Será que sabem o que fizeram?
Ah, se vocês soubessem...
enviada por Ka
12/03/2007 11:33
Quebre a perna, vai...

Apesar de ter ido poucas vezes, adoro teatro. É uma arte que exige total entrega, é no palco que a interpretação do ator flui e este é totalmente desnudado, onde sua sinceridade com seu personagem é cruelmente revelada. O cinema, devido às suas várias tomadas e sistema de filmagem não-linear (a última cena do filme pode ser a primeira a ser gravada), provoca a desconstrução do personagem. O ator pode abraçar seu papel ao ler o roteiro e fazer laboratório, mas na hora das filmagens, o personagem é fragmentado em takes, repetições cansativas e dispersões do espaço-tempo em celulóide. O tempo de uma peça teatral é o tempo que o ator (ou atores) de fato leva para fazê-la. E às vezes, uma encenação pode durar anos.
É comum eu assistir a teatros sem ter que pagar entrada. Não que isso seja exatamente bom. Às vezes se torna uma experiência cansativa, porque os atos acabam sendo muito longos. Mas não tenho do que reclamar, já que fico sempre nas primeiras filas, e já fiquei de camarote, vejam só! Tem um que eu gosto muito, é o Teatro do Desdém, orgulhosamente apresentado pelo elenco dos Fugitivos do Ego, dirigido pelo Orgulho, com música original executada pela Auto-Suficiência (apesar de as más-línguas dizerem que ela é muito falsa, por sempre plagiar músicas alheias). É bacana. Sério, é bacana... Porque, apesar de por vezes se revelarem experiências maçantes, volta e meia os atores esquecem sua falas e tem que se virar e se apoiar nos coadjuvantes pra conseguirem respaldo. É aí que você vê todo o talento de improvisação que eles têm. Tanto esforço pra segurar uma encenação tem que ser reconhecido, havemos de admitir.
Ah, mas fica chato quando eles insistem na mesma peça por muito tempo, quando você já sabe todas as falas e antecipa todos os atos e sabe até a hora da cortina abrir e fechar. E o pior: continua tendo público. Geralmente, a casa até lota. E quase sempre batem palmas e até jogam confete no palco, o que garante futuras temporadas bem-sucedidas.
Sempre vai ter gente batendo palmas. É o público que garante a continuidade de uma peça medíocre.
enviada por Ka
02/03/2007 21:58
Jardim de lírios, rosas e guimarães
...― Meu senhor homúnculo falou (claro que com outras palavras) este jardim é meu?
E o figurim respondeu:
― Não. O seu virá, quando amar....
enviada por Ka
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|