Estrabismo
Corto
k














23/02/2007 02:23

Adivinhe quem vem para o jantar?


Hoje meu inconsciente veio me fazer uma visita. Veio tirar umas satisfações, na verdade. Meu deu uma bronca daquelas. Ele me disse pra eu parar de fazer conjecturas e me concentrar mais nas coisas, pra eu parar de ficar resmungando e prestar mais atenção por onde ando, e falou também pra eu sair da minha masmorra introspectiva e sair pra tomar um arzinho de vez em quando. Ele disse que faz bem.
Meu deu uma surra também. Lascou um monte de tapas na minha cara, me deu um mata-leão, uma voadora e ainda me chutou quando eu já tava no chão. Um sádico.

Mas meu inconsciente (pelo menos foi quem ele disse que era) disse umas coisinhas interessantes também. Incomodou, mas eu precisava ouvir tudo aquilo. Me leu por completo, o desgraçado. Levei tanta alfinetada que nem tô conseguindo andar direito. E esse bandido ainda ficou tirando com a minha cara o tempo todo. Uma hora ele olhou bem pra mim e disse, com um sorriso todo cínico: “pois é... Foi preciso te darem um safanão pra você se lembrar que tem que bater cartão nesse lado da realidade também, né?” E morreu de rir. Filho de chocadeira.

É... Mas ele é daqueles que bate e depois assopra. Depois de ter me dado umas sapecadas das boas, ele foi amaciando, dizendo que me entedia e tal, que toda mudança é de fato complicada, etc, etc. Ficou até compreensivo no final, vejam só. Falou que podia sempre contar com ele quando as coisas não fizessem muito sentido, que sempre ia estar do meu lado e blá, blá, blá. Onde já sei viu inconsciente fazer promessa?

Quando já tava de saída, me alertou pra não acreditar em tudo que falam dele por aí, ficou perguntando se eu precisava de ajuda pra juntar meus cacos, se eu precisava de cola pra me remendar e me avisou que se me visse dando ataques de displicência de novo, a coisa ia ficar feia pro meu lado.
A certa altura, falou, em meio a um suspiro de resignação: “francamente... às vezes eu não te entendo”. E foi-se o bastardo.

Mas ele volta.

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Sim, é um texto indiscriminadamente pateta, mas eu precisava postar... Catarse. E chega de ego-textos, meu Deus. Nem eu agüento mais...


enviada por Ka



01/02/2007 00:50
Regiões abstratas

Desde criança, tenho um mundo que é só meu. Um mundo que não era só extensão de mim, mas onde eu existia melhor. Quando brincava, emoldurava grandes narrativas, indo além do que se apresentava, sempre que avistava alguma coisa, qualquer coisa, minha mente imediatamente começava a inventar tantas outras situações e relações pra essa mesma coisa. Me perdia completamente na minha imaginação, divagando e me relacionando com os seres que criava. Quando aprendi a ler, foi a perdição completa. Abria portas dentro das coisas que lia e vivia dentro dos mundos que interpretava. Eu não simplesmente lia, eu era tudo que lia. E tudo tinha uma trilha sonora, cheiro, gosto. Mas antes, tudo era mais fácil. Podia ficar longe, me perder das conversas das pessoas que se achavam reais, falar sozinha, sair pulando e cantando sem precisar me justificar. Tinha a desculpa de ser criança. As coisas não tinham razão de ser. Elas simplesmente eram.

Os anos foram chegando atropelando e minha mente escapista seguia comigo, mas agora com ressalvas. Eu não podia mais ficar tão longe por tanto tempo. Na escola, tinha que prestar atenção na realidade, não nos devaneios. Se não, como eu iria pra frente, não é? Pensando agora... É curioso, mas as pessoas geralmente pensam que crianças assim são sozinhas. Eu nunca fui sozinha e também sabia brincar com o mundo “de verdade”. Eu só o deixava mais legal...

Quando fui chegando perto dos vinte anos, percebi que o meu mundo “não-de-verdade” padecia. Ele foi, ano a ano, perdendo o encanto. Agora, irreversivelmente, tinha que viver na realidade. Tinha agora metas sérias, responsabilidade de gente grande. Não podia ficar a desanuviar, tinha que lembrar das coisas, não perdê-las, tinha que ter disciplina, ter argumentos claros. Ninguém mais me deixava viver na minha mente.
E foi então que, aos vinte anos, eu comecei a morrer de realidade.

Mas em um cantinho bem tímido, meu ultraverso ainda me espera, sempre vai me esperar. E, ao contrário de muita gente, nunca vou abandoná-lo. Nunca vou deixá-lo perdido e sem esperança na dimensão do “tem-que-ter-um-porquê”, mesmo radicada no mundo real (até hoje não sei o que é isso direito). De vez em quando eu volto lá. Às vezes fico muito, às vezes fico pouco. Ainda guardo resquícios do tempo em que era cidadã quase-permanente do meu encanto, como ficar falando sozinha, fazer caretas estranhas, ter rompantes meio malucos e rir para o nada (não é o nada, são meus velhos amigos de lá, sabia?). Hoje estive lá. Todos eles mandaram um abraço.

enviada por Ka



03/01/2007 00:24
Mudando de assunto...
Sinceramente, não sei o que esse blog tá virando. Comecei falando de quadrinhos, pulei pra um texto torto mal-resolvido e agora venho com um papo de cinema (ih, já tô até vendo um monte de olho revirando). Bem, bem... Enquanto eu não acho um rumo pra esse blig, as coisas vão caindo por aqui tal como surgem na minha mente perdida.

Mas esse tema não veio tão de graça não. Surgiu porque eu tava visitando vários sites de cinema e acabei me deparando com muitos textos que falavam de filmes que eram importantes pra alguém por vários motivos. Aí, deu saudade. Saudade de 24 quadros por segundo.

Então... Fiquei lembrando de vários filmes que significam muito pra mim, matutando como eles se tornam importantes pra você devido às mais diversas razões. Ou devido às mais diversas sensações que provocam. Ou quando um filme parece dialogar com você, mostrando que sabe como você se sente, quando ninguém mais é capaz de fazê-lo. Ou quando simplesmente te divertem, mas deixam pistas pra algo a ser descoberto. Ou quando não são nada disso, mas enfim, você gostou.

Lembrei de Uma mulher é uma mulher(Une Femme est Une Femme, 1961) do diretor francês Jean-Luc Godard. Fazia muito, muito tempo que eu ouvia falar de Godard, sua importância como um dos que ajudaram na formação de um “novo espírito” cinematográfico e tal, Nouvelle Vague pra cá, Nouvelle Vague pra lá... E eu só com uma vague idéia do que diabos era isso afinal. Porque não achava Godard. Godard não me achava. E não tinha como saber o que de Vague tinha essa Nouvelle sem assistir a um filme que a representasse. Ah... Mas então consegui ter a chance de assistir a Uma mulher é uma mulher (considerado um de seus filmes mais famosos). E foi... Explosivo. Bum. O filme começava com uma música de Charles Aznavour, mas... Vejam bem, a música não surgia simplesmente lá atrás como era de se esperar de toda comportada trilha sonora... Ela explodia no meio da cena, invadindo o filme, dando um safanão nos sentidos. A música transcendeu seu papel de “fundo musical” (termo cafona, eu sei) que fica “por baixo” da imagem em movimento, para então se tornar um quase-personagem do filme. Era a vingança da trilha sonora.




Poucas vezes tomei um susto vendo um filme como aconteceu com esse. Fiquei meio sem jeito quando percebi o que tava acontecendo... A trilha sonora estava raptando o filme! Vão deixar? Vamos! Fiquei, literalmente, de boca aberta. E achei o máximo. Pronto, Godard já tinha minha simpatia mal tinha começado o filme. Canalha.

A música de Aznavour, presente em todo o filme, fornece o espírito das cenas, quase que guiando as sensações frente a elas. A trilha aumentava o caráter cômico e trazia, pé-ante-pé, uma tristeza tímida, presente na única (pelo que me lembro) cena dramática do filme. Aí você diz que isso é o que toda trilha sonora faz. Mas aqui, como eu disse, ela explode, ela seqüestra o filme sem se fazer de rogada, ela te dá um susto e morre de rir disso. E toda essa sensação confusa que uma trilha sonora rebelde me fez, colocou Uma mulher é uma mulher na minha lembrança afetiva. Talvez quando eu assistir a esse filme de novo ele não seja tão impactante. Talvez não seja metade do que eu escrevi. Mas aí o filme da minha lembrança vai ser melhor. Melhor que Godard. Hahahah!


enviada por Ka






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