Regiões abstratas
Desde criança, tenho um mundo que é só meu. Um mundo que não era só extensão de mim, mas onde eu existia melhor. Quando brincava, emoldurava grandes narrativas, indo além do que se apresentava, sempre que avistava alguma coisa, qualquer coisa, minha mente imediatamente começava a inventar tantas outras situações e relações pra essa mesma coisa. Me perdia completamente na minha imaginação, divagando e me relacionando com os seres que criava. Quando aprendi a ler, foi a perdição completa. Abria portas dentro das coisas que lia e vivia dentro dos mundos que interpretava. Eu não simplesmente lia, eu era tudo que lia. E tudo tinha uma trilha sonora, cheiro, gosto. Mas antes, tudo era mais fácil. Podia ficar longe, me perder das conversas das pessoas que se achavam reais, falar sozinha, sair pulando e cantando sem precisar me justificar. Tinha a desculpa de ser criança. As coisas não tinham razão de ser. Elas simplesmente eram.
Os anos foram chegando atropelando e minha mente escapista seguia comigo, mas agora com ressalvas. Eu não podia mais ficar tão longe por tanto tempo. Na escola, tinha que prestar atenção na realidade, não nos devaneios. Se não, como eu iria pra frente, não é? Pensando agora... É curioso, mas as pessoas geralmente pensam que crianças assim são sozinhas. Eu nunca fui sozinha e também sabia brincar com o mundo de verdade. Eu só o deixava mais legal...
Quando fui chegando perto dos vinte anos, percebi que o meu mundo não-de-verdade padecia. Ele foi, ano a ano, perdendo o encanto. Agora, irreversivelmente, tinha que viver na realidade. Tinha agora metas sérias, responsabilidade de gente grande. Não podia ficar a desanuviar, tinha que lembrar das coisas, não perdê-las, tinha que ter disciplina, ter argumentos claros. Ninguém mais me deixava viver na minha mente.
E foi então que, aos vinte anos, eu comecei a morrer de realidade.
Mas em um cantinho bem tímido, meu ultraverso ainda me espera, sempre vai me esperar. E, ao contrário de muita gente, nunca vou abandoná-lo. Nunca vou deixá-lo perdido e sem esperança na dimensão do tem-que-ter-um-porquê, mesmo radicada no mundo real (até hoje não sei o que é isso direito). De vez em quando eu volto lá. Às vezes fico muito, às vezes fico pouco. Ainda guardo resquícios do tempo em que era cidadã quase-permanente do meu encanto, como ficar falando sozinha, fazer caretas estranhas, ter rompantes meio malucos e rir para o nada (não é o nada, são meus velhos amigos de lá, sabia?). Hoje estive lá. Todos eles mandaram um abraço.